sábado, 14 de janeiro de 2012

Um menino na noite do sertão.*


De longe dava pra ouvir o choro de sua mãe. Não era um choro de tristeza, muito menos de felicidade. Na verdade eram gritos de pavor e raiva. Seu pai tentava acalmá-la de uma forma que, sabia ele, não resolveria: mandando-a se acalmar.

O constrangimento era geral. Ou quase. Suas irmãs, mais novas, tinham um misto de raiva e curiosidade no olhar. Raiva do irmão, que iria conseguir o que queria de forma tão maliciosa. Curiosidade de ver como tudo aquilo ia acabar. Se não as conhecesse podia jurar que torciam para que desse tudo errado e assim pudessem fazer suas brincadeiras, chateando-o por ter perdido a oportunidade.

Do alpendre, alguns convidados jogavam 3/7. Desde cedo bebiam, fumavam e conversavam. Ora sobre o inverno que não vinha há 2 anos, ora sobre o forró de logo mais a noite. Um dos mais esperados do ano. Noite de sábado de aleluia era sinônimo de festa. E das boas!

Mas naquele momento ninguém conversava, ninguém jogava. Todo mundo ouvia a discussão que vinha da cozinha, e olhavam constrangidos para aquele menino com pouco mais de 12 anos, e que, aparentemente, iria passar a noite na rede, de castigo.

Para ele aquilo tudo era uma incógnita. Não sabia ainda o que era melhor. Por um lado, queria ficar em casa, olhando a lua que ainda nem nascera, jogando 3/7 com seu pai, seu avô e os convidados que não iriam ao forró. Por outro lado um mundo desconhecido lhe confundia os sentidos. A sensação de descobrir algo novo, era mais interessante do que a suposta oportunidade de conhecer alguma cabocla aprumada. Já pensava (e muito) naquilo, mas naquele momento o que lhe atraia era a novidade do desconhecido.

Já tinha ido a algumas festas. Já tinha até dançado certa vez em uma quadrilha organizada pelos moradores do bairro onde morava. Na fazenda as coisas eram diferentes e naquela noite uma diferença fazia tudo se tornar mais atraente: ele iria sem a companhia de seus pais.

Por isso o desespero angustiante de sua mãe. Eram pessoas desconhecidas. Seu filho "ainda cheirando a leite" poderia se machucar, ou pior, poderia se engraçar com alguma cabocla danada. Ela não afirmava isso, mas esses eram, em ordem crescente, seus maiores medos.

Seu pai, por outro lado, queria que o filho conhecesse o mundo. O quanto antes! Sabia como aquele forró era bom e sabia o quanto o filho ia se divertir. Ninguém mexeria com ele, afinal o "doutorzinho" era conhecido e bem quisto entre os moradores da região. Seria protegido. Mais. Seria paparicado por todos! Estaria em casa.

Enquanto isso um convidado em especial aguardava ansioso o desfecho da discussão. Não que ele tivesse dependendo disso para ir ao forró, mas por conta da responsabilidade que aquilo poderia lhe gerar. Caso a autorização fosse dada, o filho do patrão ficaria sob seus cuidados. Era muita responsabilidade para quem, até então, era o responsável direto pelo chiqueiro dos bodes. Nada mais. Cuidar do filho do chefe do chiqueiro e futuro reprodutor do rebanho. Não sabia ao certo se ainda queria ir ao forró. Por um lado seria bom, pois o paparico seria estendido a ele. Seria quase o "doutor" por uma noite. Por outro lado se algo desse errado...

Finalmente a discussão parou. Não se sabe ao certo se durou trinta minutos ou meio segundo. O tempo era irrelevante diante da situação. O pai colocou a cabeça para fora da porta e gritou:

- Vai cara, mas olhe lá!

O menino pulou o alpendre e sumiu na escuridão da noite. Só depois de alguns longos passos se deu conta de que tinha deixado seu protetor para trás. Olhou em volta e viu o vulto vindo longe, apressado, já meio desesperado achando que tinha perdido o garoto de vista, pensando que o pior já tinha acontecido.

- Espera cara, senão teu pai me mata!

Os dois sorriram e seguiram em frente. A diferença de idade não impedia que os dois se tratassem como iguais. Eram parceiros de futebol, de cavalgada e agora, pelo visto, de festas também.

Na medida em que se aproximavam do local da festa, os pensamentos do jovem enlouqueciam. O que antes era curiosidade, agora era um misto de medo e arrependimento. E se sua mãe estivesse certa? E se acontecesse alguma coisa errada? Ela nunca lhe perdoaria, muito menos a seu pai. Iriam brigar, talvez até separar!!! Seria ele o responsável por tudo isso?!?! Porquê?!?! O desespero foi tomando conta de tal forma que o menino parou. Ficou de pé, estático, apático. O amigo demorou pra perceber. Ao se dar conta, já estava longe. Voltou apressado e assustado.

- Que foi cara? Quer ir no banheiro? Eu te espero aqui.

- Cara, eu vou voltar. Minha mãe vai ficar com raiva.

Nesse momento o menino deu meia volta e começou a voltar pra casa, num misto de tristeza e sensação de estar fazendo a coisa certa. O amigo ficara surpreso, mas aliviado. Também não queria aquela responsabilidade. Estava satisfeito com a decisão do garoto e lhe seguia em silêncio, respeitando a decisão que parecia ser a mais correta.

Logo a frente, ouviram risos. O amigo pegou o menino pelo braço e sussurrou:

- São as filhas do Zé Muleira.

Os dois se esconderam por trás de um juazeiro e observaram as moças passarem. O luar era intenso e permitia, no meio da noite, identificar o desenho do corpo daquelas jovens. Cabelos soltos, vestido comprido e rodado e um cheiro que não deixava dúvidas no interesse de chamar a atenção. Era o tipo de mulata que sua mãe tanto temia. Daquelas que derrubam o rebanho. Andavam, conversavam e gargalhavam. No meio da conversa identificou algo que fez saltar seu coração. Não de paixão, mas de nervosismo:

- O Doutor disse que o doutorzinho já tinha saído há 15 minutos. Vamos andar mais rápido senão quando chegar ele já vai tá acompanhado.

O amigo segurou seu ombro, como que diz: - Poxa vida, cara! Tão falando de ti!!!

Mas na verdade nada falou. Nada precisava ser dito.

O menino tinha pouco mais de 12 anos, mas aparentava bem mais. Nascido e crescido no meio do mato, com pouca idade foi morar na cidade e ganhou mais corpo que os meninos da região. Passava tranquilamente por 18 anos. E era o que dizia pra todos! O interesse? Que lhe deixassem jogar bola no time da vila e que lhe tratassem como homem, não como menino. Seu pai não desmentia, mas também não afirmava. Quando perguntavam a idade, só dizia:

- Cresce rápido, né?

Ele sabia da importância de se começar a viver cedo e a brincar, jogar, namorar... As meninas logo perceberam aquele rapaz, que chamava a atenção não pela beleza, mas principalmente por ser da cidade, ser diferente.

Saíram de trás do juazeiro e seguiram para a festa. O amigo nem perguntou. O menino nem se deu conta que em algum momento tinha pensado em desistir. Ou desistir de desistir. Era o instinto de chefe de chiqueiro...

Nada era como o menino imaginava. A pouca experiência que ele tinha das festas da cidade em nada parecia com o forró do sertão. O clube era cercado de palhas de coqueiro enganchadas em arame farpado. Na portaria, uma pessoa colocava esmalte na unha do dedo mindinho, pra marcar quem já tinha dado ingresso. Não havia energia elétrica. Cerveja, refrigerante, água? Jogadas num cocho com gelo e raspas de madeira. O sanfoneiro, zabumbeiro e tocador de triângulo ficavam em um pequeno palco. Quase não se ouvia a voz do cantador. E um puxado regular, com compasso e marcação perfeitas se fazia presente em todas as canções. Era o arrastar das chinelas no cimento seco. Aquilo tudo dava o tom de algo que nunca esqueceria.

No fundo da quadra ficavam as mesas. O amigo logo tratou de conseguir uma. Muitos vieram lhe cumprimentar. Perguntavam por seus pais, se queria uma cerveja, uma cachaça, um frango assado.

- Num vai dançar?

Estavam lhe sufocando e ele tratou de sair dali. Foi dar uma volta pela quadra. No canto, encostadas na parede, várias moças ficavam à espreita, talvez esperando por um convite. Criou coragem e foi em direção à primeira que lhe olhou nos olhos. Estendeu a mão e escutou um sonoro: "Não, to só olhando." Quis ter ouvido sua mãe naquele momento (na verdade tinha certeza de que, de alguma forma, ela estava rindo muito naquela hora). Respirou fundo, olhou em volta e percebeu que a festa quase inteira estava olhando pro fora que ele tinha levado. Deu um sorriso amargo e voltou a andar.

O forró esquentava. O cheiro de perfume barato e suor se misturava com a poeira que subia e o bafo de cachaça. Era bom! Ao fundo viu seu amigo dançando com uma cabocla aprumada. Achou incrível como ele dançava bem. Ficou observando os passos e decidiu tentar mais uma vez. Dessa vez seria mais cauteloso. Ia observar mais um pouco. Observou demais. O forró parou, deixando o menino desolado. Buscou seu amigo e ele lhe acalmou. Era só uma pausa pros tocadores se refrescarem. Logo ia começar de novo.

Procurou se aconselhar com o amigo. Contou o fora que levou e foi logo repreendido.

-Cara, ninguém convida não. Pega pela mão e puxa pro meio da quadra. Ai abraça e começa a dançar.

Porque ninguém tinha dito aquilo pra ele antes? Era simples e prático! Tão logo o forró começou, mirou na moça mais bonita que encontrou. Estava parada, olhando pro tempo como que esperasse por alguém. Era por ele! Caminhou em direção a ela com o olhar fixo. Quando já estava bem perto ela lhe olhou com um misto de surpresa e susto. Não contou pipoca. Agarrou na sua mão, deu as costas e começou a, literalmente, arrastar a moça pro meio da quadra. De início sentiu uma pequena repuxão. A moça tentava se desvencilhar, sem sucesso, da mão daquele rapaz. Com alguns segundos, no entanto, aquilo se transformou em completo desespero por parte da moça. O rapaz, no entanto estava concentrado em encontrar um lugar vago pra dançar e só se deu conta do que estava acontecendo quando não conseguiu mais puxar a moça pela mão. Ao se virar encontrou a mesma quase chorando. Ai percebeu que na outra mão havia um negro alto, forte e com cara de poucos amigos. Tentou pedir desculpas...tudo em vão. O negrão só não lhe deu uns cascudos pois foi seguro por seu amigo e protetor, que de longe viu a trapalhada do menino e anteviu a tragédia. Por sorte seu amigo conhecia o negrão e lhe explicou o mal entendido. O negrão deu uma risada azeda pro menino e saiu.

- Poxa cara, tu quer me matar de susto. Como é que tu faz isso com a moça?

- Mas foi tu que disse pra puxar direto!

- Sim, mas olha antes se ela está acompanhada, né!

O menino ficou desiludido. Resolveu voltar pra mesa e ficar sendo paparicado pelos velhos chatos, amigos de seu pai. Ao menos teria atenção.

De longe percebeu que a mesa já estava ocupada. Pensou em voltar pra quadra, talvez ir embora. Naquele momento ele percebeu que estar ali não lhe fazia bem. Enquanto pensava, escutou uma risada e se lembrou de algo que não poderia ter esquecido! Virou-se e lá estavam elas, as três filhas do Zé Muleira, rindo e olhando pro menino que agora já pensava em qual das três iria tirar pra dançar.

Resolveu ser mais cauteloso e puxou assunto primeiro. Eram três irmãs muito arrumadas. A mais velha, com pouco mais de 20 anos, era a mais bonita e também a mais cortejada. Não só pela beleza, mas também por já ter sido casada e ter um filho. Naquelas bandas e naquele tempo aquilo era sinônimo de alegria pros marmanjos. Mas o menino ainda não pensava tanto naquilo. A do meio, mais branquinha, era a menos bonita, porém a mais oferecida (talvez por isso, vá saber). Tinha um olhar que dizia: estou aqui. O menino também não gostava daquilo. Não desse jeito.

A mais nova, com seus 15 ou 16 anos era a que lhe chamava a atenção. Talvez pela idade mais aproximada, talvez pela beleza jovial. Talvez pela timidez. Talvez por ter sido a única até então a não lhe retribuir um único sorriso. Era ela. Naquela noite tinha que ser ela.

Perguntou pra elas o que achavam da festa. A irmã do meio foi logo dizendo que tinham passado na casa grande pra chamá-lo, mas ele já tinha vindo. Perguntou se ele estava com alguém. Ele disse que não. Perguntou se ele queria dançar. A cabeça do menino ficou a mil. Se dançasse com uma não poderia dançar com a outra. Ou poderia? Tinha que ser rápido. Disse que sim.

- Então leva essa aqui pra dançar pois se depender dela ela num te convida é nunca.

Falou enquanto estendia a mão da irmã mais nova em direção ao menino, que ficou paralisado de alegria. Parecia que tinha tido uma embolia. Ficou olhando feito bobo pra mão, pra irmã do meio que sorria e pra mais nova que lhe olhava com cara de quem tava odiando, mas no fundo gostava. Finalmente a irmã mais velha ajudou:

- Vai menino, num vai te matar não, é só uma dança.

Ele suspirou, pegou a mão, deu as costas e saiu arrastando a pobre mulata pro meio da quadra.

Dali em diante o que aconteceu foi indescritível. O menino tinha tanta experiência em dançar forró quanto uma geladeira. A menina nem isso. Ficaram os dois de braços dados. Ora um fazia um movimento, ora o outro. Ora um pisava no pé do outro. Se olhavam e riam. Foi assim por quase uma música, ou dez músicas...ninguém sabe ao certo...

Finalmente a menina pediu pra voltar. Não se sabe ao certo se por conta do pisões no pé ou pelos chutes na canela. Voltaram pra mesa. O menino sentou-se ao seu lado e tentou dar um beijo. Ela retribuiu...

Ficaram lá sentados... pouco conversaram... não tinham motivos pra falar....já estava bom daquele jeito...

O menino já tinha beijado antes. Sabia como era aquilo tudo, mas era a primeira vez que conseguia algo assim, na hora. Sem cortejos, sem cartinhas, sem recados, sem paqueras intermináveis. Se sentiu um adulto. Melhor: se sentiu um homem!

A beijoqueira só parou quando foram interrompidos pelo amigo, que finalmente lhe achou e lhe convenceu a ir embora. Já ia amanhecer e ele tinha que recolher o gado de leite pra ordenha matinal. O menino tentou convencer as irmãs a irem juntos. Em vão. O forró ainda ia durar e elas não queriam perder.

Deu um beijo de despedida e partiu.

No caminho de volta, pouco conversou. O amigo sabia que ele queria viver aquele momento. Ele sabia que não precisava falar mais nada. Estava feliz.

Chegaram em casa com o sol já raiado. No alpendre, sua mãe esperava numa rede. Ao primeiro sinal de chegada ela saltou, como se quisesse dizer que estava acordada. Em vez de brigar, deu um beijo, talvez pra sentir algum cheiro de bebida (ou de perfume), e perguntou se estavam com fome. Disseram que não.

O amigo partiu pro cercado. Tinha que recolher o gado. O menino entrou pra dormir. Foi ao banheiro se assear. Ao sair do banho encontrou seu pai. Ele perguntou como tinha sido. Tudo bem, respondeu o menino.

- Da próxima vez limpe as manchas de batom do rosto antes de chegar em casa.

O menino passou a toalha no rosto com surpresa e vergonha pelo pai ter visto. Não tinha nada, era um blefe.

O pai sorriu feliz.

*Essa é uma história de ficção!!!

Um comentário:

  1. Maria Lucimar Rodrigues Carneiro14 de janeiro de 2012 às 23:48

    Muito boa sua produção Carneiro Neto. Sempre admirei seus escritos, entretanto, este superou os anteriores. Talvez por fazer parte de minhas(nossas)raizes e tenha me sentido no ambiente em questão.
    Pareceu-me também estar lendo um dos romances do seu avô, escritor de mão cheia, muito talentoso.
    Beijos e comece o próximo, você promete!

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