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quinta-feira, 26 de maio de 2016

A culpa é de quem?!?!





Vejo muitos comentários tratando sobre o comportamento feminino nesse caso absurdo do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro, onde 33 animais do sexo masculino (não são homens, são ratos) estupraram uma jovem de 16 anos. Vejo postagens várias afirmando que “a culpa não foi de menina”, que “mulher não merece ser estuprada”, que “mulher merece sempre respeito”....

Ora, amigos, mulher alguma, em circunstância alguma, merece ser estuprada! Não há (pelo menos não deveria haver) necessidade alguma de se afirmar isso!

Meninas: vivam! Sonhem! Voem! Sejam donas do próprio corpo, da própria vida!!! A culpa não é de vocês!!! Nunca foi e nunca será!!!

A culpa é nossa!!! Nós, homens, estupradores ou não, somos os culpados por essa e outras atrocidades, monstruosidades, abusos...

Somos culpados quando assediamos com galanteios jocosos e públicos só pra "impressionar" os "amigos" presentes... aquele assobio.... aquela piadinha.... aquele "ô lá em casa".... isso tudo é um primeiro passo que poderá culminar, um dia, com um assédio físico, um estupro, um crime!!!

Somos culpados quando compartilhamos imagens, vídeos e outras coisas em redes sociais.... muitas vezes em grupos de "amigos"... também pra "impressionar".... também pra se "auto afirmar"... também pra se "mostrar".... um dia essa necessidade de auto afirmação poderá culminar com um assédio verbal, físico, estupro, crime!!!

Somos culpados quando comentamos entre "amigos".... "nossa, olha aquela mina".... ""que roupa é essa" .... "essa mina tá querendo coisa"....um dia esses comentários virarão um assédio verbal, físico, um estupro, um crime!!!

Somos culpados quando presenciamos os galanteios, compartilhamentos, comentários e silenciamos!!! Sim, meu nobre!!! Silenciar, omitir-se, é tão grave quanto cometer!!! Quando não reprimimos os "primeiros passos" permitimos que essas práticas se tornem "comuns", "aceitáveis", "toleráveis".... um dia poderemos também tolerar um assédio verbal, físico, um estupro!!!

Nunca se esqueçam: “quem poupa o lobo, sacrifica o cordeiro”!!!

Mas não é só isso!!!

Somos também culpados quando não ensinamos aos nossos filhos o DEVER que eles têm em respeitar a tudo e a todos!!! O DEVER em não se calar diante de uma injustiça!!! O DEVER de proteger os oprimidos e humilhados!!! Filhos bem educados dificilmente se envolverão nesses atos repugnantes!!! Dificilmente assediarão, estuprarão...

Se eu tenho medo de ver meu filho sendo vítima de algum assedio ou estupro? Tenho muito! Mas tenho muito mais medo de vê-lo sendo autor dessas atrocidades!!! Peço sempre a Deus para que eu consiga ensiná-lo a tratar as pessoas com respeito.

A melhor forma? Pelo EXEMPLO! Respeitar a mãe dele é o mínimo que posso fazer! Se ele me vir tratando a minha esposa de forma grosseira, o que ele vai achar que pode fazer? Se ele me vir fazendo comentários impróprios com uma mulher, o que ele vai começar a fazer? Se ele me vir silenciando em situações de injustiça.... será que ele terá coragem de se rebelar um dia?!?!

Há homens que não conseguem imaginar como é o dia a dia de uma mulher.... comento muito isso com meus alunos com uma comparação muito prática. 

Pergunto a eles: - se um dia vocês forem presos, qual seria o seu maior medo dentro da prisão? 

A resposta da imensa maioria? - Ser estuprado!!! 

Daí, meus caros, basta vocês imaginarem esse medo todos os dias, o dia inteiro, durante a vida toda.... sejam bem vindos ao universo absurdo e injusto de nossas mulheres....

Mulheres.... peço desculpas a todas por tudo.... a história nos envergonha.... somos todos culpados.... e continuaremos sendo enquanto não evitarmos os “pequenos assédios”, enquanto não combatermos o assédio alheio, enquanto não educarmos nossos filhos a serem homens de verdade.... por favor, nos perdoem...  nos perdoem por destruirmos sua paz.... por destruirmos suas almas.... suas vidas....

Homens.... cresçam!!! Somente idiotas acham graça dessas piadinhas com as meninas! A imensa maioria dos seus “amigos” falará mal de você quando você der as costas!!! Você nada mais é do que um PALHAÇO pra eles e um BABACA pra elas!!! Aprenda com os erros alheios e coloque-se no lugar do próximo... tente ser o cara cordial, educado, respeitador.... quer uma dica? Você será muito mais admirado, respeitado e amado dessa forma.... é simples, é fácil.... basta querer....

Que Deus abençoe a todos nós.... que Deus proteja nossas mulheres....

domingo, 28 de junho de 2015

Como é dar aula no ensino superior e a corrupção na universidade



Pensei em escrever um texto crítico e formal a respeito da educação e da sociedade. Mas dizer que a educação é a salvação já ficou meio fora de moda. Portanto, acho melhor apenas contar pra vocês como é dar aula. Lembrando que este texto não é uma crítica à profissão. É apenas uma exposição das frustrações diárias e um apelo a uma mudança urgente de postura, não só dos alunos, mas da sociedade como um todo. Aqui mostro como a postura corrupta está enraizada nos alunos e já virou parte da comunidade acadêmica.
 
 

Antes, uma pausa para minha relação com a profissão. Particularmente, gosto muito de ensinar. Gosto de matemática e gosto de entender matemática. Passar adiante minhas paixões é algo que faço por amor. Nunca houve problema sério o bastante para não desaparecer diante do quadro, dos alunos e sobre o tablado. Dar aula e pensar a respeito de matemática apagam, momentaneamente, claro, todos os meus problemas.


"FAZ PROVA FÁCIL"

 


Minha felicidade se esvai diante das avaliações, dos comentários, da falta de compromisso dos alunos. Ouve-se mais “alivia aí, fessô!” do que “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite.” Há liberdade para chorar, mas não há liberdade para a educação e cortesia.


"VALE PONTO, PROFESSOR?"

 


Em sua maioria, aluno não faz nada sem receber algo em troca. E a moeda de troca é chamada de ponto. A única motivação é o ponto. Sugestão de livros? Só valendo ponto. Lista de exercícios? Só valendo ponto. Fazer pelo conhecimento é ser taxado de idiota.


TRABALHOS E LISTAS


Tudo copiado. A cópia é quase sempre nítida. Conjecturo que numa turma de alunos, apenas \sqrt{k} realmente fazem os trabalhos, enquanto todo o restante apenas copia dos colegas.

Pai Rodrigo adivinhando o futuro: Esse aluno que só copia vai taxar de vagabundo moradores de rua. Vai dizer: “emprego tem demais, basta querer!”


AULAS DE EXERCÍCIOS

 


Durante aulas de exercícios, ninguém faz nada. O pedido geral é um resumão bem estilo pré-vestibular. Melhor ainda se você dar dicas do que cairá na prova (e pensar que nem assim os resultado são bons.) Gente pra gritar “faz um resumão aí, fessô!” Nunca falta. Você dá aula por meses antes de avaliação e aí lhe aparece vários que não prestaram atenção em nada, mas no dia da aula de exercícios eles aparecem lá só pra gritar a frase anterior ou pra escolher um exercício aleatório que sequer tentaram. Qual a razão de dar aula se no fim é dado um resumo mágico que abre todas as provas e desvenda todos os segredos?


LISTA DE PRESENÇA

 


Como aluno, confesso, nunca gostei de ir às aulas. Sempre preferi estudar sozinho. Assim poderia estudar durante a madruga, horário que sempre fui mais produtivo. Nunca tive problemas com chamadas. A aprovação era minha absolvição. Por conta disso, a única postura que adotei como professor foi a de passar uma lista de chamada e reprovar por infrequência apenas aqueles que não obtiveram 60 pontos. Ou seja, não precisou ir à universidade para ser aprovado? Parabéns, campeão.

A regra da UFMG é reprovar aluno infrequente. Tenha ele a pontuação necessária para sua aprovação ou não. Portanto, estou isentando o aluno de um dever: frequentar a universidade. Qual o resultado? Alunos assinam as listas pelos colegas. O sujeito foi livrado de um dever, mas ele não quer dar nada como contra-partida. Ele ainda quer o direito de, caso reprovado na pontuação, fazer o exame especial.


Nem vou comentar que assinar um documento em nome de outra pessoa é crime. Tem até nome: falsidade ideológica.


Logo, se o professor deseja ser rigoroso com a lista de presença, ele deve chamar nome a nome, como lá nos tempos da escolinha infantil Girafinha Feliz.


Pai Rodrigo adivinhando o futuro: Esse mesmo aluno que pede pro colega assinar a chamada, acha um absurdo o médico que só bate ponto e vai embora. Vai reclamar também do deputado que estava batendo dedo lá pro outro. Vai postar lá na timeline “É um absurdo!”


PROVAS E COLAS

 


Esta é a pior parte e a maior prova de que ninguém se preocupa com educação. Durante os meses de aula, o aluno não fez nada. Porém, chegada a prova, não foi possível estudar todo o conteúdo ou simplesmente não estudou mesmo. Qual o recurso utilizado? Cola. A pessoa não cumpriu com suas obrigações como aluno, nada fez até o momento da prova, porém ele ainda quer obter bom resultado. Apesar de totalmente irresponsável, o aluno ainda acha plausível apelar para a cola. Ainda quer uma boa nota. Isso é o absurdo dos absurdos. A incoerência da incoerência.


Existem ainda casos mais absurdos. Aqueles que os alunos pagam outros para fazer a avaliação em seus lugares (preciso lembrar que aqui também se comete crime?). Chegamos ao ponto ridículo de precisar olhar documento dos próprios alunos por conta dessa atitude patética. Isso é literalmente comprar o próprio diploma. É ridículo querer o diploma mas não querer fazer nada.


Pai Rodrigo adivinhando o futuro: O aluno colador, que hoje é engenheiro porque pagou gente mais esperta que ele pra se formar, vai gritar “Abaixo a corrupção!” aqui na porta de casa. Ele também vai compartilhar um monte de reportagem sobre escândalos de corrupção e vai dizer que esse país não tem jeito.


O ALUNO, O PATRÃO E O FUTURO

 


Enquanto considerou coisa de otário estudar quatro horas por dia, o aluno corrupto vai gastar 12h do seu dia, muito possivelmente, fazendo dinheiro pra outra pessoa. Ele não vai chegar pro chefe “alivia aí, chefe!”, “quebra essa aí, patrão!” porque ele sabe o destino de empregado molengão: rua. E ele vai dar duro, porque, ao contrário da educação superior, valoriza o emprego que tem. Sua timeline estará repleta de links contra a corrupção na política, contra desvio de verbas, enquanto continua perpetuando que colar não tem problema, assinar lista é “de boa” e pagar para fazerem suas avaliações é coisa de esperto. E assim continuaremos sendo essa sociedade que ainda não entendeu o valor moral e intelectual da universidade, pelos séculos dos séculos…

Por Rodrigo Ribeiro
Em https://rbribeiro.wordpress.com/


MINHA OPINIÃO

Perfeito o texto do Rodrigo! Retrata bem o que penso!

Acrescentaria apenas um comentário no que se refere ao PLÁGIO que, é, pra mim, um dos maiores males da pesquisa científica mundial.

Conseguir pensamentos inovadores, autênticos e honestos tem se tornado cada dia mais raro. Quase tudo é copiado - direta ou indiretamente. E o pior, quando descobertos, os plagiadores agem com revolta, como se tivessem exercendo um direito e nós, professores, fôssemos os verdadeiros CRIMINOSOS! É a inversão de valores atuando em prol da hipocrisia e da desmoralização do ensino...

De tudo, sei que uma parte dos professores continua(rá) fazendo sua parte! Afinal, ainda acreditamos na educação como fonte transformadora da sociedade... 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Idiota à brasileira

Ele fura fila. Ele estaciona atravessado. Acha que pertence a uma casta privilegiada. Anda de metrô - mas só no exterior. Conheça o PIB (Perfeito Idiota Brasileiro). E entenda como ele mantém puxado o freio de mão do nosso país...

por Adriano Silva

Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha quem pega no pesado. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nos ombros, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de "tigres" - porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras. O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa. Influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas - nem mesmo pôr ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d¿água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. O PIB é especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto - transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do Perfeito Idiota Brasileiro vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes no shopping. É o casal que atrasa uma hora para um jantar com amigos. As regras só valem para os outros. O PIB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino - porque ele é melhor que os outros. É um adepto do vale-tudo social, do cada um por si e do seja o que Deus quiser. Só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

O PIB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista para caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si, mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PIB adora isso.

O PIB anda de metrô. Em Paris. Ou em Manhattan. Até em Buenos Aires ele encara. Aqui, nem a pau. Melhor uma hora de trânsito e R$ 25 de estacionamento do que 15 minutos com a galera do vagão. É que o Perfeito Idiota tem um medo bizarro de parecer pobre. E o modo mais direto de não parecer pobre é evitar ambientes em que ele possa ser confundido com um despossuído qualquer. Daí a fobia do PIB por qualquer forma de transporte coletivo.

Outro modo de nunca parecer pobre é pagar caro. O PIB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de "cheguei lá" e "eu posso". O sujeito acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou buscar ofertas, é coisa de pobre. E exibe marcas como penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, deixaria as etiquetas presas ao que veste e carrega. O PIB compra para se afirmar. Essa é a sua religião. E ele não se importa em ficar no vermelho - preocupação com ter as contas em dia, afinal, é coisa de pobre.

O PIB também é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material, lhe fazem roubar roupão de hotel e garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer produto que esteja sendo ofertado numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O PIB gosta de pagar caro, mas ama uma boca-livre.

E o PIB detesta ler. Então este texto é inútil, já que dificilmente chegará às mãos de um Perfeito Idiota Brasileiro legítimo, certo? Errado. Qualquer um de nós corre o risco de se comportar assim. O Perfeito Idiota é muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

Um sistema ético que, infelizmente, virou a cara do Brasil. Ele está na atitude da magistrada que bloqueou, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar o carro. Ele está no uso descarado dos acostamentos nas estradas. E está, principalmente, na luz amarela do semáforo. No Brasil, ela é um sinal para avançar, que ainda dá tempo - enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual em nome da coletividade. E isso o PIB prefere morrer antes de fazer.

Na verdade, basta um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PIB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmo deveres - não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa dois que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos - e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, não atrasar mais do que gostaria que atrasassem com você. Se algum desses códigos sociais lhe parecer alienígena em algum momento, cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus do PIB. Reaja, porque enquanto não erradicarmos esse mal nunca vamos ser uma sociedade para valer.

Fonte: http://super.abril.com.br 

EM TEMPO

Já postei aqui uma crônica de Paulo Nogueira, bem mais completa e complexa, falando sobre o nosso Perfeito idiota Brasileiro... a quem interessar: http://carneiro-neto.blogspot.com.br/2012/11/pib-perfeito-idiota-brasileiro.html


domingo, 13 de abril de 2014

O errado e o hipócrita...


Hoje vi um time ser campeão mais uma vez com erro de arbitragem!

Até aí, sem problemas. O futebol é feito por humanos e somos falíveis por natureza.

O erro faz parte do futebol...

Mas me pego refletindo sobre o comportamento de determinados torcedores que viram no erro de arbitragem um motivo a mais para comemorar.

Isso representa bem a realidade do nosso cenário brasileiro. Roubo, roubo e mais roubo. Três vezes, isso mesmo. 

E os torcedores se vangloriando do roubo, se vangloriando do jeitinho brasileiro, da trapaça, do ganhar na malandragem. Vergonha que a cada dia torna o nosso povo e nosso país mais medíocre e alienado. 

Mas isso só mostra a cara de uma parte do nosso povo. A nossa realidade de subalternos e país de terceiro mundo e com tanta gente corrupta e espertalhona! 

Essas mesmas pessoas são aquelas que reclamam da corrupção, dos políticos desonestos...

Brasil um pais de medíocres! E viva o futebol! E viva a copa do mundo!!!

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Que tipo de médico o Brasil precisa?



Apesar do lançamento atrapalhado, o programa Mais Médicos tem se consolidado como uma hábil jogada do governo federal. As entidades que representam a categoria médica foram alvo fácil pela miopia política causada por lutas trabalhistas.

Em pouco tempo e com a ajuda de atos irracionais como o chamado à omissão de socorro do agora contrito presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais ou o indignante protesto contra os colegas cubanos dos médicos de Fortaleza, os médicos conseguiram se isolar da maioria da população e servir de combustível para aquecer a aprovação do governo nas pesquisas de opinião. Mas esse ambiente de polarização deixa de lado uma pergunta fundamental: que tipo de médico que o Brasil precisa?

A visão do estudante de medicina brasileiro é frequentemente resultado de um sistema que tem coerência interna na forma de enxergar seu processo de formação:

- a seleção é feita através de provas ultracompetitivas que demandam esforços adicionais no estudante;

- a carga horária é maior que a de seus colegas de outras faculdades, atende pacientes do Sistema Único de Saúde desde o terceiro ano e, se estiver em uma universidade pública, corresponde à justa retribuição pela pesada carga tributária paga no passado por seus pais.

Nessa ordem de ideias, parece absolutamente justo que a sociedade valorize social e economicamente esse imenso e longo esforço feito por esse médico quando formado.

Mas a coerência interna dessa visão não resiste à análise crítica, externa à categoria:

- os exames de admissão são realizados com perguntas sobre conteúdos que não fazem parte do ensino médio-padrão. Isso serve para excluir boa parte da população - quem duvidar, veja uma prova da FUVEST;

- os estudantes deveriam mostrar gratidão com os pacientes do SUS que realmente são compelidos a colaborar para sua formação como médicos – para um paciente do hospital universitário, se recusar a ser examinado por estudantes não é um a opção;

- o maior tempo que ocupam os estudantes de medicina nos seus estudos não significa que os esforços de estudantes de outros cursos sejam menores – a carreira de medicina requer uma carga horária extensa por necessitar de treinamentos técnicos nos hospitais. No entanto, outras carreiras exigem pesadas cargas acadêmicas e de criação que podem ser executadas em ambientes fora da universidade;

- não há sistemas de avaliação padronizados que demonstrem o aproveitamento desses estudos – afinal para o paciente o que importa é o resultado da formação e não a dificuldade do vestibular;
 
- os impostos pagos pelos pais não são poupança para pagar os futuros estudos dos filhos na universidade pública – se os pagaram é porque gabolsnharam mais renda que seus concidadãos. Antes, os estudantes de medicina de universidades públicas deveriam se considerar bolsistas subsidiados por muitos outros cidadãos que pagam impostos indiretos quando compram os itens de subsistência mais básicos – para saber o valor da bolsa, podem perguntar o valor de uma faculdade particular;

Tomara que algum dia essas bolsas de estudo de medicina de universidades cheguem às camadas mais pobres e que possamos afirmar com orgulho que nossas médicas parecem com suas mães empregadas domésticas e nossos médicos são a cara de seus pais pedreiros.

Cabe ainda assinalar que os que estudam em faculdade particular pagam pela infraestrutura docente, mas o custo para instituições de saúde e a colaboração dos pacientes não é necessariamente refletido nos vultosos boletos de matrícula.

O ex-ministro da saúde Adib Jatene forneceu a chave do problema há algumas semanas: as escolas médicas do Brasil estão focadas na formação de candidatos a especialistas e não em clínicos gerais ou “especialistas em gente”, segundo suas palavras.

Assim, um estudante de medicina no Brasil que desde o vestibular anseia virar ortopedista, quando faz estágio por obstetrícia sabe que o conhecimento sobre como fazer o atendimento pré-natal adequado só será necessário para ele ser aprovado  no estágio e depois no exame de ingresso na residência de ortopedia. Em outras palavras, nunca fará uso prático desse conhecimento.

Portanto, focará precocemente seus esforços naquilo que será seu futuro, participará de grupos de estudo especiais como a Liga da Ortopedia, e se não for aprovado no exame de residência na primeira oportunidade, logo após formado, seguirá tentando, no entanto, a fazer um cursinho (sim, existem cursinhos para exame de residência)  e dar alguns plantões para sobreviver (de preferência numa clínica ortopédica).

E onde leram atendimento pré-natal, podem ler também tratamento de tuberculose, esquemas de imunização, educação para prevenção de complicações da diabetes e outras atividades de atenção básica que se esperam de clínicos gerais.

O sistema está desenhado para que os grandes esforços que, sem dúvida, foram feitos pelos estudantes para se formar como médicos sejam focados em realizar uma especialização e não em ser bons clínicos gerais. Assim, nosso ortopedista formado após inúmeras noites de plantão termina encaminhando seu paciente ao colega dermatologista para tratar uma micose superficial da pele que não representaria desafio algum para qualquer clínico geral.

Um dos modelos aplicados em quase toda América Latina para aliviar a falta de médicos no interior dos países, o serviço social obrigatório, traz como feliz efeito colateral uma mudança de atitude no estudante de medicina.

O mesmo estudante que anseia em ser ortopedista no México ou Equador sabe, desde que é aprovado no vestibular, que deverá retribuir à sociedade pelo apoio dado por pacientes e instituições para sua formação, trabalhando em cidades do interior, em locais alocados pelo governo.

Nesse local, ele deverá atender a todos os pacientes que o procurarem, seja por malária ou por crise de asma. Dessa forma nosso futuro ortopedista mexicano ou equatoriano prestará grande atenção a todas suas aulas e práticas já que a expectativa de aplicação desse conhecimento é real, mesmo que depois ele seja aprovado para a especialidade de ortopedia, sabe que sua verdadeira prova como clínico geral está com os pacientes que ele deverá atender durante o período de serviço social obrigatório. E quando se tornar ortopedista, ainda continuará a ser um clínico geral que poderá solucionar problemas simples de seus pacientes sem precisar encaminhar a outro especialista.

Mas é possível ir além nessa discussão sobre a formação médica no contexto de nossa sociedade atual. Com que frequência os médicos informam a seus pacientes sobre o significado de seus diagnósticos, as alternativas terapêuticas e os convidam para fazer uma escolha conjunta sobre o manejo de sua doença antes de preencher o receituário?

O reconhecimento do indivíduo, independentemente de seu nível socioeconômico, como sujeito autônomo de direitos deve entrar também na porta de hospitais e ambulatórios. Esse é o verdadeiro significado dos esforços de humanização que, de forma valorosa, já fazem muitíssimos pioneiros, inclusive no SUS, mas que ainda não conseguem permear por completo as rígidas estruturas de muitas faculdades de medicina e hospitais universitários que continuam a focar na técnica e deixam a ética e a humanização como aulas teóricas, longe dos leitos e dos consultórios.

A discussão sobre que tipo de médico que o Brasil precisa ainda deve ser construída e essa é a oportunidade que as entidades médicas têm para virar o jogo e retomar sua interlocução com a sociedade. Alguns pontos dessa discussão foram esboçados anteriormente: o médico brasileiro deveria ser um excelente clínico geral antes de virar especialista. Deve enxergar o serviço social no interior como um incentivo para sua formação e valorizar seus pacientes como sujeitos autônomos de direitos.

A partir dessa discussão sobre o que se espera concretamente de um clínico geral, as entidades médicas poderão rever queixas até o momento nebulosas como o que significa em termos detalhados uma condição aceitável de trabalho para atendimento básico, dadas as diversidades geográficas e sociais do Brasil, e como avaliar se a formação de médicos brasileiros ou de outras nacionalidades coincide com esse perfil desejado de clínico geral.

Dessa forma o nível da discussão vai transcender os interesses eleitorais do governo e trabalhistas dos médicos para dar vez à construção de uma alternativa sustentável de atenção básica que contribua na materialização do direito constitucional à saúde para todos os brasileiros.

Ricardo Palacios é médico, formado no exterior com o diploma devidamente revalidado no Brasil, brasileiro naturalizado. Foi consultor temporário para projetos de pesquisa da Organização Mundial da Saúde e agora estuda Ciências Sociais na Universidade de São Paulo. As opiniões expressadas neste artigo não representam a posição de instituição alguma.

Fonte: www.cartacapital.com.br 


MINHA OPINIÃO

Dentre os inúmeros textos que já li sobre o tema este foi o que julguei mais sensato.

Conheço muitos médicos. Poucos são a favor deste programa. Os que são, curiosamente, trabalham na Saúde Pública. Conhecem de perto as necessidades e anseios dos verdadeiros beneficiados com este programa.

Dos inúmeros que já vi se manifestando contra, a maioria nunca trabalhou nem pretende trabalhar na Estratégia Saúde da Família. Por quê? Pois não se importam com isso. Preferem ficar ricos. Se eu os critico? De forma alguma! Estudaram muito e têm mesmo é que irem atrás de seus sonhos! Se o sonho é enriquecer, que o façam! 

Agora por favor não venham, de uma hora pra outra, alegar que se importam com a outra ponta da pirâmide! Dizer que os médicos estrangeiros vão tratar do nosso povo de forma ruim quando você, médico, brasileiro, simplesmente optou por não fazer isso é no mínimo contradição, pra não dizer hipocrisia!

Eles não fizeram o REVALIDA? Nem você! Eles não passariam? E quem garante que você passaria?!?!?

- Ah, mas eles são estrangeiros, logo, devem fazer o REVALIDA pra provar que têm qualidade!

Se os médicos brasileiros não precisam do REVALIDA então não existem meios de provar quem é mais qualificado!  E se a exigência é unicamente pelo fato de serem estrangeiros, então o problema é mais grave. Preconceito, xenofobia e outras coisas do gênero, na minha opinião, é caso pra polícia!

Por último, vejo muitos dizerem que não adiantam médicos sem estrutura, sem hospitais qualificados, enfim, sem a tecnologia! A estes eu pergunto o quê que era a medicina há 50 anos? Não existiam médicos? Eles não podiam fazer nada? Se não há estrutura nem médicos, ao menos agora, teremos médicos! Penso que um médico é melhor do que nenhum médico! Simples assim!

No mais, quero deixar claro que torço muito para que esse programa dê certo! Torço para que abram mais e mais Cursos de Medicina! Torço para que tenhamos em breve, tantos médicos que possamos, finalmente, ter saúde para todos! E que finde de uma vez por todas essa ganância por dinheiro, poder e status que tanto maltrata a todos nós!

É o que penso!

domingo, 26 de agosto de 2012

O prazer da descoberta.

Não me considero uma pessoa velha. No alto dos meus 30 anos, creio que sou apenas um pouco mais experiente que alguns. Nada mais. No entanto algumas coisas já me chamam a atenção pela ausência

Certa vez conversava com amigos sobre a falta que me faz os momentos de descoberta. A primeira vez em qualquer experiência é algo sempre marcante e, por vezes, me pego saudoso, não pelas primeiras vezes que tive, mas por vivenciar cada vez menos momentos como esse. 

A primeira vez que andei de skate, o primeiro beijo roubado, primeira vez que escutei Engenheiros do Hawaii, primeira vez que eu dei uma aula....são momentos que marcaram e que não me saem da memória.

Marcaram não por terem sido fabulosos (caí do skate - levei um tapa - a música era confusa - estava nervoso e gaguejei), mas por terem sido o primeiro. Por terem representado algo, até então, desconhecido.

Talvez por isso tantos resolvam buscar novas experiências. Esportes radicais, viagens exóticas, escutar novas bandas, aprender a tocar um novo instrumento. São possibilidades de, quem sabe, poder sentir novamente aquele gostinho de surpresa e contentamento.

Hoje, sinto isso quase que diariamente, mas confesso que não sinto por mim, sinto por presenciar isso em outro. Vendo meu filho descobrir o mundo, a vida, me sinto também prestigiado. São momentos mágicos que sei que irão me buscar pela vida toda.

Que seja ela longa, então...

domingo, 17 de junho de 2012

Juventude desregrada!




Meu reflexo no espelho dizia mais do que qualquer outra coisa. Olhos vermelhos. Pele irritada. Boca seca. Audição confusa. Cabelos despenteados (rigorosamente de acordo com a moda). Barba por fazer (idem). Uma sensação de enjôo e uma dor de cabeça que começava a incomodar. Nada ali fazia muito sentido. Não sabia o porquê, nem como tinha chegado até ali. Um turbilhão de dúvidas brotavam em minha cabeça. Onde estou? Como vim parar aqui? O quê que eu usei? Como vou pra casa? Casa?

A porta do banheiro se abriu e uma pessoa que eu nunca vi mais gorda gritou:

- Vamos cara, tá no melhor! Tá perdendo!!!

Quem era ele? Perdendo o quê? Me olhei mais uma vez no espelho, lavei o rosto e me observei por alguns segundos. Tinha prometido a mim mesmo que nunca mais voltaria a usar drogas. Naquele momento tinha a plena convicção que tinha quebrado essa promessa. Não lembrava de muita coisa, mas a sensação pós-efeito era inconfundível. Olhei pro relógio: eram 2 da madrugada. Hora de ir pra casa? Que dia era hoje?!?!

Criei coragem e saí do banheiro. O ambiente era estranho. Uma casa, um clube, uma boate. Não sabia ao certo. A música era alta e ininteligível. Na verdade não poderia dizer se a música era assim ou os meus sentidos não me permitiam distinguir som de ruído. Comecei a caminhar entre eles e, aos poucos, fui rememorando. Alguns rostos conhecidos, outros nem tanto. Algumas bebidas conhecidas, outras nem tanto. Um cigarro. Outro. Estava de volta à festa.

Logo tudo fazia sentido. Estava no local certo. Aquele era meu lugar. Dancei, pulei, cantei, beijei e usei de tudo um pouco. Nem me dei conta do quanto aquilo tudo me parecia estranho há alguns minutos. Estranho estava eu naquele banheiro...

Abri os olhos. Era dia e o sol rasgava minha visão. Onde estava? Sensações conhecidas voltavam a me castigar. Reconheci o local aos poucos. Estava em casa. Na minha casa. Como tinha chegado lá? Que horas são? 3 da tarde. Que dia é hoje? Pouco importa.

Me levanto e tomo um banho demorado....pensamentos soltos vem e vão, vão e vem....família? Dinheiro? Trabalho? Estudo? Nada me incomoda ou preocupa...não sei bem ao certo o porquê...

Toca o telefone:

- E ai cara? Vai hoje? Te pego às 19:00 h!

Pronto! Mais uma noite que chegava....mais um dia que começava....começava no final e terminava no começo! Sempre mais do mesmo... bebidas, cigarros, mulheres, drogas....que bom...


segunda-feira, 26 de março de 2012

Quando o que tarda falha...


Uma decisão judicial tem que ser tempestiva. Esse é um dos fundamentos do princípio do Devido Processo Legal, que é uma das principais normas processuais de nosso ordenamento jurídico.

Como dizia Rui Barbosa: "A justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta".

No entanto o juiz, sozinho, nada pode fazer contra os males do dia-a-dia. É um rei sem um trono. Uma bola sem um gol. O juiz precisa ser provocado. Sem provocação ele nada pode fazer.

Uma vez provocado, o juiz deve julgar com celeridade. Garantindo que o direito buscado não se esvazie com o decurso do tempo.

A pergunta que surge é: e quando a demora não ocorre no judiciário? E quando o provocador é quem atrasa?

Nesse caso, entendo, que cabe ao juiz verificar se a medida requerida é, ou não, aplicável. A análise deve levar em conta não apenas o direito discutido, mas também se a demora findou, ou não, por torná-lo ineficaz.

Uma decisão que favoreça a quem não tomou as medidas cabíveis no tempo oportuno incentiva o desrespeito à segurança jurídica e, muitas vezes, finda por desmerecer o próprio Poder Judiciário.

É o que penso.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

RUBEM BRAGA - AS BOAS COISAS DA VIDA

Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer "dez coisas que fazem a vida valer a pena". Sem pensar demasiado, fiz esta pequena lista:

- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja a rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.

- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para seu lado e, de repente, dar um chute perfeito - e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro.

- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.

- Aquele momento que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade - ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.

- Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne - a mulher não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.

- Viajar, partir….

- Voltar.

- Quando se vive na Europa, voltar para Paris;
quando se vive no Brasil, voltar para o Rio.

- Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte - o assim chamado descando eterno.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Uma vida pelo registro.


Era pra ser a viagem dos seus sonhos! Finalmente tinha realizado o que planejara por quase toda a vida. Durante anos reunira um percentual de seus ganhos para isso: conhecer Jericoacoara.

O que para muitos é um ambiente de fácil acesso, para ele era impensável, diante do pouco ganho e dos muitos gastos no sustento de seus 5 filhos. Sua esposa, prendada dona de casa, não tinha como ajudar nas despesas do lar, mas ajudava muito educando e cuidando da família. Lazer? Nos fins de semana, uma vez por mês, eles saiam depois da missa do domingo para comer uma pizza na praça. Era o ápice.

Finalmente tinha conhecido o paraíso que tanto sonhava! Sua esposa estava igualmente maravilhada, principalmente por ter tido a tão esperada lua-de-mel. Tinha conseguido, inclusive, uma máquina fotográfica e uma câmera emprestadas. Não queria perder nada!!!

Chegou em casa e foi logo abordado pelos filhos, curiosos:

- Como foi a viagem?

- Era tudo aquilo que imaginavam?

- A praia era bonita?

- O pôr-do-sol é realmente mágico?

- Calma, pessoal. Também estou curioso. Tiramos todas as fotos e vamos ver como realmente é! Respondeu o pai, calmamente.

- Como assim, pai? Você não viu nada?

- Claro que vi! Mas como não queria perder nada, filmei e fotografei tudo pra ficar pra sempre guardado!

E assim começou a mostrar as fotos e vídeos de tudo o que tinha visto, sendo vez ou outra questionado por um filho:

- Mas o quê é isso?

- Num sei meu filho, acho que é a tal Pedra Furada. Bonita, né? Tinha nem visto direito!

E aos poucos foi se dando conta de que, na ânsia de registrar tudo, acabou por não ver nada. Percebeu que momentos foram feitos para serem vividos e que fotos e vídeos foram feitos para registrarem a vida, não o contrário.

A partir de então não mais viajou. Preferiu comprar um computador, assinar uma internet de banda larga e passou a conhecer o mundo da mesma forma que conheceu Jericoacoara.