"Em 60 anos, um milhão de brasileiros participaram de linchamentos"
José de Souza Martins é doutor em sociologia e pesquisador do tema
dos linchamentos no Brasil, uma investigação que leva há mais de 40
anos. Em seu último levantamento para o livro Linchamentos: a justiça popular no Brasil,
que será publicado pela Editora Contexto no começo do ano que vem, o
professor já aposentado calcula que "nos últimos 60 anos, um milhão de
brasileiros participaram de linchamentos". Em uma entrevista pelo
telefone, explicou algumas das razões pelas quais os justiceiros
aumentaram sua atuação no país, em sua maioria, "motivados por estupros
de crianças e incestos", explica.
Pergunta. Os linchamentos que vemos na Argentina e
acompanhamos no Brasil desde fevereiro, quando o caso do rapaz preso a
um poste em Botafogo, no Rio de Janeiro, apareceu em vários meios de
comunicação, é uma bola de neve?
Resposta. Eu não estou acompanhando os casos na
Argentina, mas certamente não é um caso isolado no Brasil, acontece em
várias partes do mundo, como a África. No entanto, o Brasil é o país que
mais lincha no mundo, e posso afirmar isso pelo material da minha
pesquisa, nos últimos 40 anos. Existem linchamentos e tentativas de
linchamentos. O caso do Rio, é uma modalidade de tentativa de
linchamento, que há três anos atrás eram três ou quatro por semana, mas
que depois das manifestações de junho, passou a uma média de uma
tentativa por dia. Hoje estamos a mais de uma tentativa de linchamento
diária.
P. E quais são as razões para esse aumento? As pessoas repetem os atos que são transmitidos pelos meios? Atuam por conta própria?
R. As causas são várias. O linchamento é sempre uma
reação defensiva da sociedade contra o aumento da insegurança e da
violência. Mesmo que haja violência e brutalidade no linchamento, se
trata de uma reação autodefensiva, mesmo que seja injusta.
P. E quais são as motivações? Existe alguma constante?
R. As multidões geralmente reagem contra estupro de
crianças e incesto. Os roubos pesam menos na decisão de linchar, não que
sejam insignificantes, mas 3/4 dos linchamentos são motivados por
crimes contra a pessoa. Meu cálculo, que fiz para o livro Linchamentos: a
justiça popular no Brasil, é que nos últimos 60 anos um milhão de
brasileiros participaram de linchamentos.
P. Dos casos que o senhor acompanhou, existe algum índice de impunidade sobre esses linchamentos?
R. Não existe o crime de linchamento. Fica difícil
de utilizar os registros policiais para saber se está aumentando ou
diminuindo, justamente por isso. Os que se veem envolvidos acabam sendo
processados, mas existe o atenuante de crime de grupo. O Código Penal
costuma ser benevolente nestes casos e raras vezes a polícia consegue
incriminar. É muito difícil identificar as pessoas que cometem esses
atos bárbaros.
NOSSA OPINIÃO
A violência crescente é uma realidade em todo o país. Fruto de três fatores principais:
01 - Drogas - aqui incluído o tráfico (brigas entre gangues) e os crimes afins (cometidos por usuários desesperados por dinheiro).
02 - Corrupção - que é o maior de todos os males, pois tira do povo os investimentos que poderiam fazer com que muitos não entrassem no mundo do crime - com mais educação, saúde, emprego, enfim, dando mais dignidade.
03 - Sistema penal falido - aqui se incluem desde policiais desmotivados/corruptos até nosso sistema processual que permite várias brechas para se pôr em liberdade criminosos perigosos.
Diante disso a população começa a entrar em estado de desespero. E ele é crescente.
Vemos, a cada dia que passa, pessoas do nosso convívio sendo assaltadas, assassinadas, estupradas e percebemos que a qualquer momento pode ser conosco essa realidade tão temida. E o pior: pode ser com nossa família!
Como animais acuados, nos tornamos mais propensos a agir com o instinto de sobrevivência. Como um cachorro manso, pacato, medroso, mas que quando ameaçado age com suas últimas forças, agredindo seu agressor, fazendo justiça com as próprias mãos.
Isso tudo pois passamos a crer que não veremos justiça de outra forma.
Os exemplos estão aí. Alguém tem que fazer alguma coisa.
Remeto todos a
uma postagem que fiz no começo do ano, que traz um pouco da experiência de Nova Iorque. Política de tolerância zero que funcionou por lá.... não sei se por aqui funcionaria.... mas o certo é que, a continuar como está, entraremos em breve num estado completo de barbárie!!!
Que Deus nos abençoes...